Ensinar a falar, ler e escrever: o trabalho das escolinhas de POLH – Parte I

Escrito por Rita-Dorneles Abril 25, 2018 no site https://www.brasileirinhospelomundo.com/ensinar-falar-ler-e-escrever-o-trabalho-das-escolinhas-de-polh-parte-i/



Foto do arquivo pessoal BREACC




O que os pais podem esperar quando matriculam seus filhos em uma escolinha de POLH? O trabalho nas escolinhas vai muito além de ensinar às crianças a falar, ler e escrever em português. Propiciar um contato mais íntimo com a cultura brasileira também faz parte da programação e objetivos das instituições/iniciativas.

Bem… eu não posso falar por todas as escolinhas ou iniciativas que existem por aí, mas posso relatar a minha experiência. Para eu não ter nenhum problema, não vou colocar aqui nenhuma fotografia que envolva alunos, mas pretendo mostrar um pouquinho do trabalho que é desenvolvido no BREACC – escolinha onde iniciei e estive por 5 anos em Londres.


Como funciona o trabalho das escolinhas?


Todas as escolinhas que conheço, se preocupam com o conteúdo que passam às suas crianças: é preciso ampliar o vocabulário, desenvolver a oralidade nos que ainda não dominam a fala, oportunizar a escrita e estimular a leitura em língua portuguesa. Por menor que sejam as crianças, todas essas competências devem ser trabalhadas, mas como? Sempre através de atividades lúdicas e criativas, onde o aluno possa construir e desenvolver sua linguagem de forma natural e divertida!


Antes de mais nada eu preciso esclarecer que a maioria das escolinhas trabalha com turmas muito heterogêneas. Às vezes, as turmas são divididas por idade apenas, juntando crianças que falam e que não falam no mesmo lugar. Outras vezes as turmas são divididas por faixa etária (de 4 a 6 anos por exemplo) e possuem proficiência parecidas em língua portuguesa. Às vezes as turmas são muito heterogêneas agrupando em um mesmo espaço crianças com idades e proficiências diferentes. É preciso saber o que queremos ensinar para criarmos as oportunidades certas e diferenciadas e termos êxito na ajuda a todas as crianças.


Há várias metodologias para o ensino de uma língua, mas em POLH é preciso lembrar que não estamos ensinando uma língua completamente desconhecida pelas crianças, que há uma ligação emocional com a língua e que não se trata de ensino de língua em si, mas algo mais amplo, mais profundo do que apenas a gramática.

Devemos sempre aproveitar o que os pequenos já sabem. Assim, ao trabalharmos com uma turma de crianças em fase de alfabetização, não devemos nos prender ao ensino de letras, sons e/ou sílabas.


Devemos aproveitar o que elas já aprenderam na escola regular de onde vivem e estimularmos a transferência de saberes. Elas vão avançando nas duas línguas ao mesmo tempo sem necessáriamente serem apresentadas as mesmas letras duas vezes.

Aliado ao ensino da língua em si, temos que nos preocupar também com a cultura, mas como fazer isso? Não basta fazermos uma festa Junina, uma roda de capoeira ou uma festa de carnaval. O Brasil é muito maior do que apenas essas representações folclóricas.

Assim, é importante trabalhar  didaticamente e  pesquisar junto com as crianças outras formas e aspectos culturais da nossa terra. Há tantas manifestações culturais no Brasil que mesmo alguns pais desconhecem. É importante que os professores se preparem para saber o que irão abordar e estarem prontos para o questionamento dos pai.


Eu mesma ouvi uma vez uma pessoa dizer que o Bumba-meu-boi não era uma representação de Brasil, uma vez que não fazia parte do seu Estado e, sendo assim, era desconhecido por ela. Sim, eu ouvi isso! Sim, fiquei pasma de alguém nascido e crescido no Brasil não conhecer o Bumba-meu-boi. Mas isso é possível de acontecer e os professores devem estar preparados para tirar qualquer dúvida que os pais apresentem.

É certo que os pais ficam maravilhados quando percebem que seus filhos estão conhecendo um Brasil diferente daquele que estampa cartões postais. Mas para que haja de fato um aprendizado e que este se reverta na tão esperada fala e escrita da língua, não basta fazer o “evento” acontecer. É preciso trabalhar o tema com os objetivos citados lá em cima – falar, ler e escrever de acordo com a idade, desenvolvimento e proficiência das crianças.


Professores, as peças-chave


Os professores são peças fundamentais para ajudarem os alunos a progredirem em suas competências linguisticas enquanto se “divertem”. Ainda usando o exemplo do Bumba-meu-boi, as crianças podem ser levadas a recontar a história (trabalhando o oral), modificá-la (ampliação de vocabulário e interpretação de texto), (re)escrevê-la (trabalho de escrita), dramatizá-la (trabalho de oralidade), compará-la a uma lenda local ou a partir dela, dar um novo final, criar uma nova lenda… existem inúmeras possibilidades e em todas elas a culminância poderá ser o “evento” onde o Bumba-meu-boi será o tema.



Foto do arquivo pessoal BREACC


Na foto acima, nós professores, nos apresentamos com o Bumba-meu-boi na festa junina do BREACC, e todas as turmas apresentaram “números” ligados ao boi, mas o tema foi amplamente trabalhado durante o trimestre com a finalidade de desenvolver as habilidades da fala, escrita  leitura sempre respeitando a idade e proficiência de cada criança.

Cabe informar que em Parintins, o festival do Boi-bumbá acontece no mês de junho e que essa é a festa junina deles.


Trabalho com os adolescentes


O meu trabalho sempre foi com adolescentes. ADORO! Eles são questionadores, normalmente já falam o português com uma ou outra dificuldade e possuem um certo medo da leitura e escrita. É aí que entra todo o meu trabalho e objetivo: mostrar-lhes que não é preciso ter medo,  que eles sabem sim ler e escrever, que errar faz parte do processo e que não é feio. Durante o ano vou observando os problemas mais comuns daquela turma e vou criando atividades que oportunizem a discussão sobre o tal erro, seja som ou grafia, que eles tenham maior dificuldade .

Logo no início da minha experiência com o POLH tive uma aluna que escreveu na sua primeira produção de texto, que adorava ir a “pria”. Ora, ela é falante nativa de inglês e embora eu tenha levado algum tempo para entender o que ela tentava me dizer com aquela palavra, assim que matei a charada, fiquei superfeliz por ela ter escrito e ter conseguido passar a mensagem que queria. Sim, ela gostava muito de ir a PRAIA (o I em inglês lê-se AI então ela não estava completamente errada). Jogos fonéticos ajudaram-na e aos outros a se corrigirem sem que eu precisasse apontar o tal “erro”.


Os jogos não podem ser aleatórios,  não deve ser um jogo qualquer fora de contexto ou em qualquer momento. Deve ser planejado, fazer parte da aula, que você, enquanto professor, vai ministrar, uma vez que existe um objetivo pedagógico por trás e um tema servindo de pano de fundo para as aulas.

Em casa também é possível ajudar seus filhos a conquistarem competência tanto na leitura como na escrita de forma divertida. O SMS pode ser apenas em língua portuguesa, ditar listas de compras, escrever cartinhas surpresa para a família no Brasil, ler um livrinho para a(o) irmã(o) mais novo, podem ser boas alternativas de trabalho com os pimpolhos, sempre adequando a idade e a proficiência da sua criança, respeitando as dificuldades e não apontando erros.

Brinque com seu filho em português e ajude-o a ser cada vez melhor na sua língua de herança. O estímulo dado em casa não é substituído nas escolinhas. Só você pode dar o valor exato que a língua de herança tem.





RITA-DORNELES

Rita é carioca, graduada em Pedagogia, com habilitações em Orientação Educacional pela Unisuam no Rio de Janeiro e possui vários cursos na área de língua de herança. Integrou o corpo docente do BREACC em Londres por 5 anos, onde iniciou sua experiência lecionando Português como Língua de Herança (POLH) e preparando alunos adolescentes para o exame GCSE do Reino Unido. Atualmente, é membro da equipe docente da Associação Raízes de Genebra na Suíça, lecionando POLH para crianças entre os 11 e os 14 anos. Já participou em vários workshops, simpósios e conferências com a temática da língua de herança e colaborou no livro recém lançado “O POLH na Europa – volume 1”, com um capítulo sobre material didático. Mora em La Tour-de-Peilz, na Suíça, com o marido e a cadela Lola.

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