Língua Portuguesa vai na bagagem de mão?


Escrito por Claudia Amalfi Marques, novembro 27, 2017, no site brasileirinhospelomundo.com


Língua portuguesa vai na bagagem de mão?

Quando uma pessoa pretende se mudar do Brasil para outro país é como abrir uma porta para outra dimensão:  a porta para o desconhecido! Tudo é tão novo que precisa ser pesquisado, avaliado, discutido, mastigado, e digerido… é um trabalhão, sem dúvida nenhuma.

E quando essa mudança envolve filhos? O frio na barriga triplica, a ansiedade vai a mil e o desejo é de ser expert em adaptação à cultura local em 3, 2, 1… A luz da proteção materna entra em sistema de alerta máximo, não é mesmo?

No topo dentre as  maiores preocupações nessa fase está a adaptação da criança às novas rotinas, dúvidas quanto à socialização (fará amigos, será aceito?), ingresso na escola (escolha da escola, proposta pedagógica, se vai ser promovido ou atrasado em virtude de calendário escolar diferente do brasileiro, lanche, afetividade dos professores, e tantas outras coisas), adaptação ao clima (calor extremo ou inverno congelante, neve … ). A lista de preocupações pode ser bem grande, mas se for possível traçar uma linha que interligue todos os temores travestidos de preocupações, teremos um fio condutor: o idioma local.

Claro que não é regra geral, mas grande parte das vezes, a criança não domina a língua do lugar aonde ela vai morar. Muitas vezes, antes da mudança para um novo país, os pais investem em aulas particulares para que os filhos desembarquem na nova cidade tendo “noções gerais”  do idioma. Mas isso está longe de ser fluente em uma língua, certo? Acompanhamos em diferentes fóruns: desde grupos informais de pais e mães de determinada localidade no Facebook, blogs diversos, grupos de discussão ou até na festinha de despedida ainda no Brasil, mães e pais preocupadíssimos com o aprendizado de uma nova língua, o quanto pode ser fácil ou não, quanto tempo demorará a fluência na língua, o que fazer enquanto esse momento mágico não chega, uma tentativa insana de dimensionar a dificuldade do filho e formas de suavizá-la. Preocupações legítimas, diga-se de passagem.

E as respostas, nos diferentes lugares é sempre a mesma: calma… Criança aprende muito rápido; criança é como esponja, absorve tudo e em poucos meses estará totalmente adaptada; não se preocupe com isso… Muito comum também ouvir a profecia: seus filhos se adaptarão mais rápido e melhor do que vocês!! Língua? Falarão e entenderão tudo com muita facilidade. E finalizam com o prognóstico: de quatro a seis meses seu filho parecerá um falante nativo!! E tantas outras palavras de acolhimento e despreocupação. É a sabedoria popular oferecendo um afago em um momento da mudança.

E assim, com muitos questionamentos e muita vontade de tudo dar certo,  essa família pega um avião rumo à felicidade.

E tudo realmente dá certo! O conhecimento prévio de algumas palavras ou frases no idioma local se mostra eficaz, novas palavras e estruturas gramaticais são aprendidas, são colocadas no dia a dia, o vocabulário vai crescendo, as estruturas vão ficando mais complexas, o ritmo vai se adequando e o sotaque quase vai embora… Essa criança está totalmente adaptada (não estou me comprometendo com o tempo que esse processo vai ocorrer). Alguns arriscam a dizer que nem parece mais brasileira!

E poderíamos concluir com um: “e foram felizes para sempre”?

Mas, eis que alguém pergunta: quem colocou na mala a Língua Portuguesa? A cultura? A identidade? As memórias?

O que é do Brasil fica no Brasil? Cortamos todos os laços e zeramos as experiências previamente vividas? Todos os sons, sabores, sentimentos ficarão guardados e passarão a chamar saudade? E saudade é aquela que o tempo apaga?

A preocupação em manter o uso do português não fez parte do check list pré mudança. Talvez alguém dizer que seu filho nem parece mais brasileiro não seja propriamente um elogio, não é verdade?

Leitor, não se sinta constrangido, julgado, não é a intenção deste texto.

Lembrando que nada do que falaremos nos próximos textos e reflexões está atrelado a tempo cronológico ou localização geográfica. Sabemos que muitas mudanças de país são motivadas por questões de trabalho e que muitas vezes têm prazo definido. Após esse prazo em determinada localidade, lá vai a família rumo a uma nova mudança ou retorna ao país de origem (que não deixa de ser uma nova mudança). Outras famílias vão sem prazo de validade. Durante esse experiência no exterior, novos filhos nascem, a família aumenta. Outras tantas novas famílas se formam a partir de relacionamentos entre pessoas de diferentes nacionalidades. Independente de qualquer coisa, a pergunta permanece: qual o lugar da Língua Portuguesa, da língua materna em todos esses cenários?

É sobre cidadãos e multiculturalidade que queremos conversar. É sobre o Português como língua de herança. É sobre agregar e não substituir. É sobre libertar-se e se enriquecer.

E advinha? Dá trabalho!! Manter ou ensinar o português aos nossos filhos morando longe do Brasil, dá muito trabalho sim! De novo… mas vale muito a pena. Fica aqui registrado meu convite para pensarmos, discutirmos e colocarmos em prática ideias para promover língua de herança. Falemos português e… Inglês, alemão, japonês, espanhol, mandarim, sânscrito, grego, etc, etc, etc, mas sempre, e também, o português. Agreguemos experiências e novas tradições, mas não deixemos nossas raízes sem alimento, pois dela, muitos frutos ainda virão, e tornarão muito mais rico o repertório de nossas crianças.


CLAUDIA AMALFI MARQUES

Claudia é paulistana e mora atualmente com sua família nos Estados Unidos. Fonoaudióloga, Ludoeducadora e com pós graduação em Gestão de Organizações do Terceiro Setor, sempre esteve envolvida em projetos de natureza sócio-educacional. Acredita em propostas baseadas no tripé: afetividade, ludicidade e potencialidades. Por vezes usa botas country, adora brigadeiro e não abre mão de uma bela pasta italiana. Por isso ama viver em Houston e sua multiculturalidade.

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